No livro “La Familia Grande”, que será publicado na quinta-feira, a enteada de Duhamel, Camille Kouchner, acusa Duhamel de abusar sexualmente do irmão gémeo, Antoine, quando tinham 14 anos, em 1980. Vários excertos do livro relatam o incidente. “Claro que pensei que o meu livro poderia parecer obsceno por causa da fama da minha família. Depois pensei para mim, isto é exatamente o que precisa de ser feito”, assume.

A advogada relata que os abusos duraram durante dois anos e que tanto os amigos da família como a mãe sabiam, mas preferiram manter o segredo para “evitar um escândalo”. Camille recorda que o irmão lhe implorou para não contar nada a ninguém, que tinha vergonha do que aconteceu. “Eu tinha 14 anos e deixei acontecer… Eu tinha 14 anos e sabia e não disse nada”, escreve no livro.

Camille e Antoine são filhos de Bernard Kouchner, ex-ministro da Saúde e dos Negócios Estrangeiros e cofundador da organização não-governamental Médicos sem Fronteiras, e Evelyne Pisier, historiadora e escritora, que faleceu em 2017.

A enteada revela que não conseguiu mais ficar em silêncio. “Este livro nasce de uma necessidade: testemunhar o incesto, mostrar que ele durou anos e que é muito, muito difícil quebrar o silêncio. Não o escrevi em nome do meu irmão, mas para as irmãs, as sobrinhas, todas as pessoas afetadas pelo incesto”, explica numa entrevista à revista “Le Nouvel Observateur”, citada pelo “The Guardian”.

Olivier Duhamel, 70 anos, é um respeitado politólogo em França, professor universitário, apresentador na rádio “Europe 1”, comentador no canal televisivo LCI e presidente da Fundação Nacional de Ciências Política (FNSP). De 1997 a 2004 integrou o Parlamento Europeu, como eurodeputado socialista. É filho do político Jacques Duhamel, que desempenhou o cargo de ministro da Agricultura e da Cultura, durante a presidência de Georges Pompidou.

Após as acusações, Duhamel não quis comentar, despediu-se de todos os cargos que ocupava e eliminou a conta da rede social Twitter, após escrever que foi alvo de “ataques pessoais”. O diretor da Fundação Nacional de Ciências Política (FNSP), Frédéric Mion, confessou estar chocado com o sucedido.

“Um forte segredo que há tanto tempo pesa sobre nós foi levantado. Admiro a coragem da minha filha Camille”, diz o pai dos gémeos, Bernard Kouchner, num comunicado divulgado pelo advogado.

O meio-irmão, Alexandre Kouchner, fez questão de apoiar os irmãos neste momento de revelação: “Eu amo os meus irmãos e a minha irmã. Admiro a sua coragem e apoio a sua escolha de quebrar o silêncio. Devemos sempre ouvir, ouvir e proteger aqueles que sofreram e sofrem. Quanto ao resto, sugiro-vos que leiam o livro”, escreveu no Twitter.

Apesar de não se saber se o crime já prescreveu, face às acusações de Camille contra o padrasto, o Ministério Público de Paris decidiu abriu uma investigação, esta terça-feira, “por violação e agressão sexual sobre um menor com menos de 15 anos”, anunciou o procurador Rémy Heitz.

“As novas investigações, confiadas à Brigada de Proteção de Menores da Direção Regional da Polícia Judiciária procurarão esclarecer estes fatos, identificar quaisquer outras potenciais vítimas e verificar o possível estatuto de limitações à ação pública”, assegura à revista francesa L’Obs.

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