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“Os nossos japoneses são melhores que os japoneses dos outros”. Lembrei do inesquecível slogan da Semp Toshiba enquanto pensava no tratamento dado ao caso Marcius Melhem, acusado de assediar moral e sexualmente colegas de trabalho na Rede Globo. Primeiro, de parte da própria Globo, que levou exatamente um ano após as primeiras denúncias para se manifestar.

Mas também pela militância feminista, que não lançou, pelo menos até a reportagem da revista Piauí, nem hashtags nem convocações de cancelamento, como aconteceu e sói acontecer em outros casos. Fiquemos com o exemplo de José Mayer: tão logo tornou-se pública a denúncia contra ele, também acusado de assédio, rapidamente a emissora o afastou do quadro de atores e o próprio Jornal Nacional manifestou as razões.

Zé Mayer encarnava, naquele momento, a versão brasileira de Harvey Weinstein. No caso d’agora, como eu já disse, o JN só foi levado a falar depois que a merda no ventilador estava incontrolável. A Globo, que até então não tinha sequer afastado seu diretor de humor, justificou que não podia quebrar o “compromisso de sigilo” feito com os colaboradores. V

á lá. Mas e a militância, por que não pressionou antes? Há quem argumente que a reputação de Marcius, responsável por adaptar o Zorra Total a uma cartilha mais, digamos, politicamente correta, o manteve como que blindado até a publicação da reportagem citada e a atriz Dani Calabresa (mesmo a contragosto) botar a boca no mundo.

E aí surge a questão: alguns assédios chocam mais que outros? A comoção maior ou menor depende dxs envolvidxs? Se os então boatos surgidos ano passado fossem contra, por exemplo, um Alexandre Frota da vida, o pessoal esperaria com tanta parcimônia o desenrolar da coisa? Alguns japoneses são mais ou melhores japoneses que outros? Parece que sim.

Para ficar na dramaturgia, lembremos quando a deputada federal Maria do Rosário defendeu a cusparada de José de Abreu no rosto de uma mulher. A vítima foi cuspida porque o seu marido acusou o ator de mau uso de recursos da Lei Rouanet. A cena é: um homem cospe na cara de uma mulher para agredir ao marido desta. Mas a parlamentar feminista justificou a “cabeça quente” do ator com quem compartilha a visão política. Tá çerto!

Eis o que me pergunto (e também a você que lê): Rosário teria a mesma interpretação se o ator fosse outro? Ou se fosse outra mulher? Mulher de direita (sic) seria menos mulher? Ou ator de esquerda menos (ou nada) agressor? Pois bem, o caso Marcius Melhem reacende a discussão. Por outro lado, há que se repensar o uso das ferramentas. Questionado sobre seu suposto silêncio, o humorista Paulo Vieira defendeu-se alegando que passou pelo menos duas horas depondo em prol de Dani Calabresa junto à direção da Globo.

Ou seja, é claro que redes sociais são importantes (e muita coisa se conseguiu graças a elas, por denúncia ou pressão), mas a vida é muito maior e nem tudo cabe ali ou deveria ser ali abordado. Seja como for, a complexidade da situação só reforça a importância das bandeiras levantadas — no caso, a feminista. Pensar o modo de empunhá-las, no entanto, é crucial para o tiro não sair pela culatra, como às vezes acontece.