(Foto: Reprodução)

Um dos jovens que foi retirado com truculência do Salvador Shopping na noite da última segunda-feira (28) foi apresentado na Delegacia Para o Adolescente Infrator (DAI), ainda na noite de segunda. O adolescente negro de 15 anos estava acompanhado de outro jovem negro e os dois foram expulsos do centro de compras por seguranças do estabelecimento.

estemunhas contaram que um deles havia recebido um mata-leão e foi arrastado por dois funcionários do centro de compras enquanto gritava por socorro. De acordo com a assessoria da Polícia Civil, o adolescente de 15 anos foi conduzido por uma equipe da Polícia Militar e foi liberado após ter sido ouvido.

Um Boletim de Ocorrência Circunstanciado (BOC) foi instaurado e será encaminhado à Promotoria da Infância e da Juventude. Além do jovem, dois funcionários do shopping – um segurança e o chefe da segurança do local – também foram ouvidos na delegacia. Ainda segundo a polícia, os dois alegaram terem sido xingados e ameaçados pelo garoto, que também tentou agredi-los.

O Coletivo de Entidades Negras (CEN) repudiou o ato. Para o CEN, o caso chancela o princípio de racismo estrutural.

“O Coletivo de Entidades Negras (CEN), instituição do movimento social negro brasileiro, repudia o ato amplamente noticiado, que remonta dores antigas e também recentes vividas por nós, como o assassinato de Alberto Freitas por seguranças do Carrefour. Por detalhes, não vimos se repetir o roteiro que indica vidas negras como aquelas a serem ceifadas”, dizem, em nota.

O CEN ainda cobrou uma apuração imediata do caso pelos órgãos responsáveis. “Encaminharemos essa nota pública ao Centro de Referência de Combate ao Racismo Nelson Mandela, da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial do Estado da Bahia (Sepromi), para que fique registrada a denúncia, a ser tipificada como crime de racismo”, dizem.

O coletivo ainda afirma que deve acionar a Secretaria de Segurança Pública (SSP), o Ministério Público do Estado e a Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Bahia, para exigir providências do shopping. “Propomos publicamente, ainda, um boicote coletivo, da sociedade soteropolitana e baiana, ao Salvador Shopping. Pois o capitalismo brasileiro, fundado sobre bases racistas e escravistas, só entenderá o recado desta forma. Não haverá sossego enquanto o racismo estrutural seguir nos matando subjetiva ou objetivamente, pois seguiremos em marcha”, completam.

Entenda o caso
Segundo pessoas presentes no local, os jovens aparentavam ter entre 12 e 16 anos. Os dois foram levados para os corredores internos do shopping pelos seguranças, onde outra funcionária fazia a guarda na porta para impedir a entrada de quem acompanhava a situação.

Os meninos foram levados para a polícia, um deles foi liberado e outro encaminhado para a delegacia para apuração da ocorrência, segundo o Salvador Shopping.

Um casal que pôde acompanhar o processo de expulsão dos dois do local disse ter sido informado que o jovem levado pelas autoridades tem uma reclamação de violência no shopping em seu nome. Uma testemunha que não quis se identificar afirmou que o garoto foi levado em uma viatura da Polícia Militar, mas os outros presentes não souberam confirmar a informação.

“O casal nos contou que os meninos não estavam machucados, que eles estavam bem. Disseram que a abordagem policial manteve distância, conferiram o bolso deles, mas não de forma truculenta. Eles não tinham sinais de violência aparentes”, contou a estudante Júlia Magalhães, 23 anos, que acompanhou o desenrolar dos fatos.

Um dos meninos reagiu de forma mais dura à abordagem gritando muito e tentando fugir dos seguranças. Ele, inclusive, caiu no chão, conforme mostra um vídeo que circula nas redes sociais.

Os funcionários responderam com mais brutalidade, afirmaram os presentes, que contaram ainda que o outro jovem estava mais calmo. Ambos tentaram, de alguma forma, não ser levados pelos agentes de segurança.

Pelo menos seis pessoas esperaram no shopping até o final da expulsão para garantir que os jovens não seriam machucados e cobrar uma resposta do estabelecimento sobre a brutalidade da atuação dos seguranças. O grupo não prestou queixas na polícia nem abriu uma reclamação no Salvador Shopping sobre o caso.

“Fiquei preocupada vendo essa situação de violência e racismo, por isso, fiquei esperando com outras pessoas para saber como estavam os meninos. Pedimos para ver eles na sala, mas os seguranças barraram a entrada. Depois de um tempo, um casal foi liberado para acompanhar a entrega dos meninos para a polícia”, relembrou Júlia.

Outra testemunha que não quis se identificar contou que o casal não acompanhou a ação por inteiro, só tendo acesso aos jovens mais para o final da retirada forçada.

Outro lado
Já o Salvador Shopping emitiu um comunidade afirmando que reforça que as imagens que circulam sobre a ocorrência correspondem ao final de um longo período de negociação, “onde os dois jovens estavam causando desordem e ameaçando clientes e colaboradores no empreendimento”.

Segundo a assessoria do centro de compras, um dos um dos jovens foi conduzido pelas autoridades para delegacia para apuração da ocorrência e o outro liberado pela polícia e clientes que testemunharam o fato acompanharam os jovens até a condução às autoridades policiais. O shopping alega que a integridade física dos dois foi preservada.

“Isso não justifica a conduta dos colaboradores que aparecem nas imagens, totalmente em desacordo com as orientações que recebem nos treinamentos periodicamente ministrados à equipe. Por essa razão, eles foram imediatamente afastados de suas funções, até que tudo seja devidamente esclarecido, com a individualização das responsabilidades e a aplicação das sanções cabíveis”, completa.